Estudar para concurso trabalhando: o plano das 20h

Estudar para concurso trabalhando: o plano das 20h

São 20h40 de uma terça. Você saiu do trabalho às 18h30, pegou o ônibus, jantou em pé e sentou.

Na tela está a videoaula de direito administrativo, em 1,5x, que faz parte do curso que você paga desde março. Você está no minuto quatro pela terceira vez.

Às 21h15 você fecha o notebook e a conta que roda na sua cabeça é sempre a mesma: se eu continuar assim, não passo. Só que a conta está errada, porque ela compara a sua terça com a terça de alguém que não trabalha.

A regra: concurso se ganha na noite mediana, repetida

Ninguém passa por causa da noite excelente. Passa por causa da noite mediana que aconteceu 400 vezes.

Então monte o plano na altura da noite mediana. Se ele só funciona quando você chega em casa disposto, ele não é um plano, é uma aposta na sua sorte.

Duas faixas por dia, não quatro horas de noite

Quatro horas seguidas depois do expediente é a promessa que quebra em duas semanas. Duas faixas curtas, em horários diferentes, sobrevivem a mês ruim.

Faixa Quando Duração O que entra
Manhã 6h10–7h00, antes de todo mundo acordar 50 min A matéria mais difícil, sempre. Cabeça limpa é recurso escasso
Almoço 20 minutos do intervalo 20 min Só revisão: flashcards, caderno de erros, lei seca no celular
Noite 20h00–21h40 2 × 50 min Questões. Não videoaula

A faixa da manhã é a que ninguém quer e a que muda o resultado. Às 6h10 nenhuma reunião varou, ninguém te ligou e o cansaço ainda não chegou. Às 21h30 os três já aconteceram.

Se você trabalha em escala ou pega trânsito longo, troque as faixas de lugar, mas mantenha a estrutura: uma faixa protegida antes do expediente, uma migalha no meio, um bloco à noite. Duas faixas ruins ganham de uma faixa boa que não acontece.

Quantas horas por dia eu preciso estudar?

Não existe número de pesquisa para isso, e quem te dá um está chutando com firmeza. As histórias de “eu estudava dez horas por dia” são reais e quase sempre vêm de quem não trabalhava.

Troque a métrica. Conte questões resolvidas e corrigidas por semana, não horas sentado. Trezentas questões por semana com correção honesta é um número que você consegue verificar; “quatro horas por dia” é um número que você consegue mentir para si mesmo sem esforço.

Ciclo de matérias, não cronograma por dia da semana

Cronograma por dia da semana quebra na primeira quarta em que você fez hora extra. Você perde a quarta e perde a matéria da quarta, e uma semana depois duas matérias sumiram.

O ciclo resolve isso: uma fila de matérias com tempo definido, que anda quando você estuda e para quando você não estuda. Nada é perdido, só adiado.

Ordem Matéria Bloco
1 Português 50 min
2 Direito administrativo 2 × 50 min
3 Raciocínio lógico 50 min
4 Direito constitucional 2 × 50 min
5 Informática 50 min
6 Legislação específica 50 min

Terminou o bloco, marca e passa para o próximo. Na quinta em que só deu uma faixa, você fez o item 3 e para no 3 — na sexta você começa no 4. O ciclo não sabe que dia é hoje, e é exatamente por isso que ele aguenta o seu mês.

Peso maior para as matérias com mais questões no edital e para as suas piores. As duas coisas ao mesmo tempo, o que quase sempre significa dobrar o bloco das disciplinas jurídicas.

Revisão programada: o que separa quem avança de quem recomeça

A parte mais frustrante de estudar por dois anos é reencontrar em setembro um assunto que você dominava em março.

Três revisões, sempre curtas, sempre a partir do seu material resumido:

  • 24 horas depois, 10 minutos, no dia seguinte de manhã.
  • 7 dias depois, 15 minutos, de livro fechado.
  • 30 dias depois, 20 questões da matéria, sem reler nada antes.

A do trigésimo dia é a que dói e é a que mede. Se você acerta metade, o assunto não estava aprendido, estava reconhecido — e reconhecer é o que a releitura produz.

Videoaula conta como estudo?

Sozinha, quase não. Assistir é confortável, passa rápido e produz a mesma sensação enganosa de quem passa marca-texto no livro.

Videoaula conta quando é seguida de questões na mesma faixa. A regra prática: no máximo metade do bloco em aula, o resto em questão. Se a aula tem 40 minutos e o seu bloco tem 50, assista em velocidade maior e reserve os últimos 25 para resolver.

E se a sua banca cobra item de certo ou errado com desconto por erro, o treino tem que ser nesse formato desde o começo. Aprender a não marcar é uma habilidade separada de saber a matéria, e ela só se treina errando de graça em casa.

A noite que deu errado tem plano B

Você vai chegar em casa às 22h10 alguma vez nesta semana. Sem plano B, essa noite vira zero, e duas noites zero seguidas costumam virar uma semana perdida — a regra que salva um hábito é nunca falhar duas vezes, não nunca falhar.

O plano B tem uma linha: 25 minutos de questões da matéria em que você parou, corrigidas na hora, e dormir.

Não é uma versão pior do estudo. É a dose de manutenção que mantém o ciclo andando e mantém a sua ideia de si mesmo intacta, que é a parte cara de reconstruir.

E marque um dia de folga na semana, escolhido na sexta anterior. Folga decidida antes é agenda. Folga por desabamento é falha, e a diferença entre as duas mora inteira no momento em que você decidiu.

Onde as horas realmente somem

Não é no Instagram, embora ele ajude. É em três lugares mais chatos.

Escolher o que estudar. Dez minutos por noite decidindo é uma hora por semana. O ciclo existe para matar essa decisão.

Montar material novo. Resumo bonito de matéria que você já resumiu é procrastinação com letra caprichada. Se o resumo já existe, você tem que revisar, não redesenhar.

O grupo da turma no WhatsApp. Informação útil chega em quantidade pequena e em horário aleatório, e o custo é ficar disponível a noite inteira. Deixe silenciado e abra uma vez por dia, depois do último bloco.

Se as suas noites vivem sendo comidas por reunião que varou e por resposta que “leva um minuto”, o problema não é o cronômetro e sim o dia inteiro — vale ler a comparação entre cronômetro e blocos de agenda antes de mexer em qualquer outra coisa.

Quando este plano não serve

Escala 12×36 ou plantão. Dias não comparáveis entre si tornam qualquer meta diária uma mentira. Conte por quinzena e monte o ciclo por blocos disponíveis, não por dias.

Filho pequeno em casa. A faixa da manhã pode ser a única que existe, e às vezes ela também não existe. Nesse período, um bloco de 25 minutos por dia é vitória e não consolo.

Edital publicado para daqui a três semanas. Aí o jogo é outro: só questões da banca, só as matérias com mais itens, revisão diária e nenhum conteúdo novo. Ciclo longo é para o período sem edital.

Você trabalha o dia inteiro com texto. Advogado, redator, analista, professor. Se a sua jornada já consome a parte da cabeça que lê, à noite prefira questões e áudio, e mova a leitura pesada para a manhã ou para o sábado. Isso não é frescura, é o mesmo recurso sendo cobrado duas vezes — e é o argumento a favor de proteger um bloco longo no fim de semana em vez de exigir concentração de segunda à noite.

Você não está bem. Exaustão que não passa com fim de semana não se resolve com cronograma. Concurso é maratona de anos, e ninguém corre maratona com fratura.


O Fomodo roda o cronômetro dos seus blocos e bloqueia os aplicativos que te puxam durante a sessão, usando o Tempo de Uso do próprio iPhone. Um limite que vale conhecer antes: o escudo é por aplicativo, não por conversa. Não dá para bloquear só o grupo da turma e deixar passar a mensagem da sua mãe — ou o WhatsApp inteiro está atrás da tela de bloqueio, ou não está. Para quem tem gente dependendo de resposta, isso muda o que é possível bloquear.

Uma coisa pequena que importa numa noite ruim: sessão encerrada antes da hora não vira zero. Os doze minutos que você fez entram na conta do dia com o mesmo peso dos doze minutos de uma sessão inteira, porque o contrário disso ensina a não começar quando o tempo é curto.

O edital vai sair num dia qualquer. Quem chega nele é quem manteve a terça mediana.

MT
Minh Trần

Escreve sobre a ciência da atenção e a criação de ferramentas de foco.

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